A falar (Português) é que a gente se entende...

Incrementar o uso da Língua Portuguesa

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Localização: Carnaxide, Lisboa, Portugal

sábado, Agosto 13, 2005

As Duas Línguas Do Brasil

(qual é mesmo a língua que falamos ?) As línguas diferem muito pouco no que diz respeito a suas capacidades expressivas. Mas, como é evidente, diferem muitíssimo quando a sua importância cultural, política e comercial. Temos, por um lado, línguas como o inglês, o espanhol, o russo, o chinês, o francês (e, mais modestamente, o português) que servem a vastas comunidades, sendo intensivamente utilizadas na política, na TV e na imprensa, na ciência, na literatura etc. Elas são chamadas, um tanto peconceituosamente, "língua de civilização". Por outro lado, existem línguas de interesse puramente local, como o xavante e o caxinauá entre os índios brasileiros, a maioria das línguas africanas, muitos dialetos locais da Europa e da Ásia, e assim por diante. Essas línguas nem sempre são faladas por comunidades diminutas: embora algumas só tenham algumas centenas de falantes, outras, (como o haussa, na Nigéria, e o quíchua, no Peru e na Bolívia) têm vários milhões. O que as opõe às línguas de civilização é que não são usadas intensivamente em toda a gama das atividades da vida moderna. O quíchua, no que pesem seus muitos falantes, não é veículo utilizado na grande imprensa, nem em obras científicas, e tem uma literatura bastante restrita. O caso mais extremo dessa limitação é das línguas realmente desprovidas de tradição escrita. Estas podem possuir uma ortografia, em geral de invenção recente, mas o corpo de material escrito nelas é muito pequeno e restrito a certas áreas de interesse: alguma literatura regional, traduções da bíblia feitas com vistas à catequese, e pouco mais. Tais línguas se chamam "ágrafas" (literalmente,"sem escrita"; mas já vimos que essa privação não precisa ser absoluta). É o caso do xavante, do changana (falado em Moçambique), do Bergamasco (falado em Bérgamo, no norte da Itália), de muitas pequenas línguas da Itália. Existe uma verdadeira multidão de línguas ágrafas pelo mundo afora. Em geral, elas convivem com uma da línguas de civilização, que seus falantes utilizam quando tratam de assuntos fora das necessidades do dia-a-dia. Dessa forma, um cidadão de bérgamo, quando conversa com a família, poderá exprimir-se em Bergamascomas, ao tratar de negócios, falará italiano; ao assistir a televisão, estará ouvindo italiano; e seu jornal de domingo estará escrito em italiano. Pode haver discussão entre os especialistas sobre quando é que uma língua deve ser considerada ágrafa. Muitos sustentam que o maia, língua indígena do sul do México, não é ágrafo, já que existem textos nessa língua há vários séculos. Não precisamos entrar nessa briga; creio que qualquer um pode ver diferença nítida entre uma língua que serve a todas as necessidades da vida moderna e uma que não o faz. A esta ultima chamamos "ágrafa". Vamos mudar de assunto agora; mais tarde, tentaremos juntá-lo ao que foi dito acima. Nosso segundo tema é o seguinte: que língua se fala no Brasil? Mas será que vale a pena fazer essa pergunta? Todo mundo (e todo o mundo) sabe que a língua do Brasil é o português. Além do mais, é uma língua de civilização, segundo a definição que vimos. Basta pegar um jornal, ligar a TV, passar os olhos nas prateleiras de uma livraria, salta à vista que o português é a língua do Brasil. Não há dúvida de que a língua de civilização que serve é o português. Além do mais, ela não está nem um pouco em perigo de perder essa posição privilegiada: apesar do que se fala dos progressos do inglês em certas áreas, o português continua firme como o veiculo de todos os aspectos da cultura brasileira. A imensa maioria da população (incluindo os universitários) é incapaz de se exprimir, e mesmo de ler, em qualquer outra língua. Logo, como se pode ter dúvida sobre a posição do português na comunidade brasileira? Mas notem que eu não perguntei qual era a língua de civilização do Brasil. Perguntei que língua se fala no Brasil. Explicando melhor: será que falamos a mesma língua que escrevemos e lemos? Muita gente tem opinião sobre isso; mas para formar nossa própria opinião vamos colher alguns dados. Digamos que estamos usando um binóculo durante o jogo de futebol e um amigo também queira dar uma olhada. Ele chega e diz: - Me empresta ele aí um minuto. É importante observar que essa é uma forma correta de falar naquele local e naquele momento. E que qualquer pessoa poderia utilizar uma frase como essa (não apenas as chamadas "pessoas incultas"). A frase acima faz parte do repertório lingüístico de todos os brasileiros; em uma palavra, é assim que nós falamos. Podemos escrever diferente (por exemplo, empreste-mo um minuto), mas falamos daquele jeito. Imaginemos outra situação: uma senhora está na confeitaria encomendando salgadinhos; diz ela: Você pode fazer eles pra sábado? A festa vai ser domingo, mas domingo eu não posso vim aqui, porque o bairro que eu moro é muito longe, e meu marido vai no jogo e vai levar o carro. Aí eu busco eles no sábado, se você tiver de acordo. Imagine a pessoa falando, e verá que essa fala é perfeitamente natural. Mas escrita ela choca um pouco, porque está cheia de traços que não costumamos encontrar em textos escritos: A preposição pra (em vez de para); O infinitivo vim (em vez de vir); A construção o bairro que eu moro (em vez de o bairro onde/ em que eu moro); A regência vai no jogo (em vez de ao jogo); As expressões fazer eles (em vez de fazê-los) e busco eles (em vez de busco-o ou mesmo, Deus nos livre!, buscá-los-ei). O verbo tiver (em vez de estiver). Agora, uns exemplos tirados da morfologia. A estrutura do verbo na língua que falamos é bem diferente da que se encontra na língua que escrevemos. Assim, há formas que nunca aparecem na fala, como: O mais-que-perfeito simples (fizera, gostáramos, fora); O futuro do presente (farei, gostaremos, irá). Na língua falada em Minas, também raramente ocorre o presente do subjuntivo (façamos, gostem, vá); essas formas são, entretanto, usuais no Norte e Nordeste do Brasil. O verbo falado difere do verbo escrito em outros detalhes. Assim, escreve-se (ou, mais exatamente, as gramáticas mandam que se escreva) quando eu te vir. Mas na fala essa expressão é difícil até de entender; falamos quando eu te ver. As gramáticas afirmam que no presente o verbo vir tem a forma vimos: nós vimos aqui toda semana. Na fala, claro, só se viemos, seja presente, seja passado. Na fala, o pronome nós é cada vez mais substituído por a gente; e, paralelamente, as formas de primeira pessoa do plural (fizemos, gostamos, íamos) vão caindo em desuso. Há pessoas que não as usam praticamente nunca. Querem mais? Na fala, a marca de plural não precisa aparecer em todos os elementos do sintagma. Assim, formas como esses menino levado (ou mesmo, pelo menos em Minas, quês menino levado!) existem na fala de todas as pessoas. Na escrita naturalmente, a marca de plural é sempre obrigatória em todos os elementos flexionáveis: esses meninos levados. Mais um exemplo: o imperativo se forma de maneira distinta na fala e na escrita. Falando, dizemos: vem cá; mas escrevemos: venha cá (no Nordeste, esta forma é também a falada). Outro: falando, colocamos com toda liberdade o pronome oblíquo no inicio da frase: me machuquei na quina da mesa; screvendo, tem de ser: machuquei-me na quina da mesa. Mas outro: falando, nem sempre usamos o artigo depois de todos (as): todas meninas têm relógio; na escrita, deve ser: todas as meninas. Acho que não é necessário continuar. As diferenças são muitas, como todos sabemos. Elas constituem uma das dificuldades principais que enfrentamos na escola, ao tentar produzir textos escritos. Aliás, por que temos tanta dificuldade em escrever textos em português? Não é a nossa língua materna? A resposta é simples, mas pode surpreender alguns: não, o português (que aparece nos textos escritos) não é nossa língua materna. A língua que arendemos com nossos pais, irmãos e avós é a mesma que falamos, mas não é a que escrevemos. As diferenças são bastante profundas, a ponto de, em certos casos, impedir comunicação (que criança de cinco anos entende empreste-lho?) Em outras palavras, há duas línguas no Brasil: uma que se escreve (e que recebe o nome de "português"); e outra que se fala (e que é tão desprezada que nem tem nome). E é esta última que é a língua materna dos brasileiros; a outra (o "português") tem de ser aprendida na escola, e a maior parte da população nunca chega a dominá-la adequadamente. Vamos chamar a língua falada no Brasil de vernáculo brasileiro (ou, para abreviar, simplesmente vernáculo). Assim, diremos que no Brasil se escreve em português, uma língua que também funciona como língua de civilização em Portugal e em alguns países da África. Mas a língua que se fala no Brasil é o vernáculo brasileiro, que não se usa em Portugal nem na África. O português e o vernáculo são, é claro, línguas muito parecidas, mas não são em absoluto idênticas. Ninguém nunca tentou fazer uma avaliação brangente de suas diferenças; mas eu suspeito que são tão diferentes quanto o português e o espanhol, ou quanto o dinamarquês e o norueguês. Isto é, poderiam ser consideradas línguas distintas, se ambas fossem línguas de civilização e oficialmente reconhecidas. Mas sendo as coisas como são, tendemos a pensar que vernáculo é simplesmente uma forma errada de falar português. Só que, para que o vernáculo fosse "errado", teria de existir também uma forma "certa" de falar; mas no Brasil não se fala, nem se pode falar português. Imagine o seu companheiro de estádio de futebol dizendo: Empreste-lo um minuto. Ou então uma mocinha dizendo para a melhor amiga: Se eu vir amanhã, devolver-lhe-ei estas velhas fitas de vídeo. É evidente que essas pessoas ficariam, no mínimo, com fama de pedantes. As duas línguas do Brasil têm cada uma seu domínio próprio e, na prática, não interferem uma na outra. O vernáculo se usa em geral na fala informal e em certos textos, como em peças de teatro, onde o realismo é importante; já o português é usado na escrita formal, e só se fala mesmo em situações engravatadas como discursos de formatura ou de posse em cargos públicos. Assim, o "certo" (isto é, aceito pelas convenções sociais) é escrever português e falar vernáculo. Não pode haver troca: é "errado" escrever vernáculo e é também "errado" falar português. Não sei se gosto dessa situação; mas é um fato arraigado em nossa cultura e temos de conviver com ele. E por isso mesmo há neste site um link que disciplina o Português. Agora, uma observação: o vernáculo é a língua materna de mais de cento e cinqüenta milhões de pessoas, que o utilizam constantemente e não conhecem outra língua. Mas não se escreve a não ser em ocasiões particulares, não aparece na grande imprensa e não tem grande tradição literária: além disso, não é reconhecido como língua oficial. Isso faz do vernáculo uma língua ágrafa, como as que examinamos na primeira parte deste ensaio. Não só isso, mas com toda probabilidade a maior língua ágrafa do mundo. Já houve tentativas, ou pelo menos sugestões, de que se passasse a escrever em vernáculo no Brasil. Mário de Andrade passou vários anos escrevendo uma gramatiquinha da fala brasileira, que nunca chegou a publicar, e que concebia como "parte de um projeto mais amplo, de redescoberta e definição do Brasil" (Edith Pimentel Pinto, em sua edição da gramatiquinha). Como se sabe, Mário utilizava uma linguagem muito mais próxima do vernáculo do que o português escrito atual. Como disse ele: "Não pensem que vou defender Portugal e me tornar simpático pros portugas nacionalistas não." No entanto, isso não vingou, pelo menos até o momento. Continuamos a escrever o vernáculo uma maneira errada de falar. Pessoalmente, não tenho grandes objeções quanto a se escrever português; mas acho importante que se entenda que ele é (pelo menos no Brasil) apenas uma língua escrita. Nossa língua materna não é o português, é o vernáculo brasileiro --- isso não é um slogan, nem posição política; é o simples reconhecimento de um fato. Assim, não se cogita de substituir o português pelo vernáculo na escrita. Mas, nos últimos anos, tem havido um aumento notável de interesse pelo vernáculo como língua a ser estudada. Existem grupos de lingüísticas que vem realizando um trabalho muito interessante de descrição de estrutura do vernáculo. Há esperanças, portanto, de que, dentro de alguns anos, se possa dispor de gramáticas adequadas da nossa língua materna, por tanto tempo ignorada, negada e desprezada.
----------------------- Por : Mário A. Perini - In AntiMoon.com

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